Olhando as águas do Sena contornou os olhos com um risco bem forte e grosso. Sabia, seguia a intuição feminina, que seus olhos verdes ressaltariam com a tintura carregada. Como uma mulher experiente colocou o eye-liner sem tremer e, olhando-o de viez pelo espelho, começou a pintar os olhos em degrade.
Com um lápis achatado colocou o tom mais claro nos cantos dos olhos. Depois com o pincel espalmado espalhou a cor mais escura pela pálpebra. Carregou no pó mais escuro e fez o contorno do globo ocular. Por fim, deu uns retoques com a cor clara, para que a pintura ficasse perfeita. Como uma atriz de cinema dos anos vinte empoou o rosto com pó de arroz. Ao espelho semelhava a uma gueixa.
Delicadamente iniciou a pintura dos lábios. Aplicou o batom vermelho sangue. Depois, contornou-os com um lápis negro fino. Tinha comprado de uma vendedora que passara pela empresa. Falou que era um presente para sua esposa. Sorriu.
Assistira, quase por acaso, a uma temporada de alta-costura parisiense. Chanel, Dior, Gaultier e Valentino exibiam suas criações na Maison de Martin Margiela - última edição Outono/Inverno 2010-2011. Luxo e euros.
Sentara na terceira fila a fim de preservar certa discrição. Havia poucos homens. Com um braço cruzado e a mão apoiando o queixo observara com atenção o desfile. A coleção da Chanel apresentava uma série de vestidos magros e longos com pescoço strapless, que chamavam a atenção.
A grife jogava com as pantys de renda e as saias longas com cortes de diversos, que mostram as pernas de maneira atrevida. Lentejoulas e pedraria enfeitavam com grande brilho. Estilo anos 80 e 90, que fora do contexto ressaltavam o bom gosto.
Um vestidinho não abalaria suas finanças. Podia. Ficou pensando quais as medidas que diria à manager. Tentado pela sua fina ironia diria, certamente, as medidas de uma modelo: quadril: 93 cm, cintura: 63 cm, busto: 89 cm. Manequim: 38. Serviria? Decidiu, pediria algumas polegadas a mais.
Terminado o desfile desceu a Rue de Montpensier até a Galeria Orléans, seguiu feliz até o Jardin du Carroucel. Levava uma fina bolsa contendo um sonho de saia vermelha em seda pura Chanel, com vários detalhes em renda e aplicação de cristais. Ficou passeando, observando as pessoas. Eram três da tarde e esta é a hora dos turistas no Louvré. Podia-se ver pela fila enorme que se formava na entrada da pirâmide.
Evitou esta entrada e desceu pelas escadas do Arco do Carrossel e entrou no shopping debaixo do Louvre. Queria comer algo rápido. Pediu uma taça de vinho branco e um croque-monsieur, feito com queijo emental. Era muito metido. Sorriu do próprio pensamento.
O sorriso atraiu o olhar de um jovem que estava em outra mesa. Não devia ter trinta anos. Cabelos longos, olhos castanhos. Instintivamente saudou-o com a taça. O rapaz levantou e dirigiu-se até a mesa.
Era um jovem professor de História de Arte. Estava chegando de Lisboa onde lecionara na Universidade Nova de Lisboa. Iniciara o doutorado na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, que fica próxima ao Museu do Louvre. Ficaram conversando. Sorriam.
Quando percebeu eram quase dez da noite. Levantou pegou a bolsa, mas o rapaz sugeriu para que fossem perambular, sem compromisso, pelos jardins do Forum des Halles, localizado onde funcionara o mercado central. Os jardins, projeto do urbanista David Mangin, ficam perto do Museu do Louvre, as margens do Sena. Seguiram.
A madrugada amanheceu no Sena. A bolsa da Maison de Martin Margiela jogada no canteiro atraiu a atenção da policial que iniciava sua ronda matinal. Alguns retalhos de seda vermelha se encontravam mais à margem. A pedraria costurada manualmente ao tecido brilhava ao sol.
Chamou pelo radio os colegas seguindo o instinto policial. Neste momento, o alto-falante do aeroporto anunciou a última chamada Paris-São Paulo. O avião taxiou na pista e levantou vôo com o assento 16D vago.