Nave Cênica


25/02/2012


A temporada de Maio da peça Lobos não Entram em Labirintos no Centro Cultural Renato Russo, em Brasília, terminou.


Para o grupo de Teatro "Scrachados" (scrachados.blogspot.com) foi uma experiência rica e cheia de descobrimentos.


Primeiro que uma peça se reatualiza a cada apresentação.


Cada sessão é uma descoberta.


Um passo a mais, uma nova forma de se maquiar, uma sombra mais ousada ou carregada.


Uma nova palavra introduzida deixa mais claro a intenção.


Um novo gesto, uma pausa, um sorriso.


Segunda descoberta: agora vamos para outra...


Não sabemos quando se dará, mas que vamos, vamos.


Já marcamos até o local do encontro, um outro camarim.


Vamos deixar os personagens decantarem um pouco.


Terceira, os personagens são egoistas e continuam a matraquear em nossas cabeças.


Exigem espaços.


Calma, meus amigos, o tablado é o mundo.

Escrito por Del Vigna às 13h45
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Homem que Sonhava

Ele tinha um sonho recorrente. Não era bem recorrente, mas sempre havia um ambiente onírico semelhante. Os sonhos se alteravam, as histórias se desdobravam se repetiam.


No início os sonhos o atormentavam. Acordava ainda confuso, pois os desafios que o sonho lhe colocava muitas vezes não faziam sentido. Mas, ele procurava na descontinuidade inerente ao sonho uma linearidade racional.


Às vezes se pegava pensando em uma saída para o sonho ou por que o caminho que tinha seguido terminara em um não-lugar. Não era bem um não-lugar, mas um lugar totalmente diferente do qual se dirigia.


Comece contando seu sonho.


Nos primeiros sonhos estava dirigindo, mas não tinha nenhum controle sobre o carro. Pisar no acelerador ou no breque era um tormento. O carro não se deixava controlar. O tormento não vinha da possibilidade de um acidente, mas do descontrole.


Para onde você ia?


Muitas vezes queria ir para um lugar, mas chegava a outro. Saia para o trabalho em Brasília e me pegava dirigindo em São Paulo. Muitas vezes, estava subindo a Nove de Julho, entrava por uma ladeira antiga perto da Faculdade de Direito e, quando via, estava saindo na Bahia.


Os sonhos são assim mesmo. Um atalho e nos levam para a direção oposta. Mas, como sabia que era a Bahia?


Sabia pelo ambiente, pelo Jeito da cidade. Não era o Pelourinho, nem a cidade baixa, mas era a Bahia. Saia em uma estrada em curva que contornava um casarão que era um museu. Tinha duas entradas em arco e um jardim com duas pequenas alamedas arborizadas. Dentro tinha toda a história em fotos, documentos, quadros e esculturas. Mas, eu não queria ir lá, queria ir para outro lugar.


Não era você que dirigia o caro?
Às vezes a mesma estrada que levava para a Bahia, levava a Santos.


A Santos?

Sim, nunca cheguei até lá, mas sabia que se contornasse o morro e descesse a ladeira chegaria a Santos. Então, você já controla o sonho.
Não é tão fácil assim. Depois de anos e anos de sonhos repetitivos comecei a conhecer os caminhos. Sabia quando ia em direção à Bahia ou a Santos. Muitas vezes eram outros lugares, mas o traçado era muito semelhante. Aos poucos o tormento do desconhecido, do descontrole e da descontinuidade foi desaparecendo. Mas, os sonhos ainda se repetem e, quando penso estar no comando do jogo, sou surpreendido.


Comando do jogo ou do sonho?


O sonho deve ser um jogo que o sonhador joga dormindo.


Lembra-se de mais alguma coisa?   


De uma garota que no Correio, com o catálogo na mão, me pedia o CEP da Bahia. “Bahia não tem CEP, Salvador tem”. Sorrimos.


Progredimos. Sua hora terminou.

 

Escrito por Del Vigna às 13h40
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30/05/2011


Temporada Finato

A temporada de Maio da peça Lobos não Entram em Labirintos no Centro Cultural Renato Russo, em Brasília, terminou.

 

Para o grupo de Teatro "Scrachados" (scrachados.blogspot.com)  foi uma experiência rica e cheia de descobrimentos.

 

Primeiro que uma peça se reatualiza a cada apresentação.

 

Cada sessão é uma descoberta.

 

Um passo a mais, uma nova forma de se maquiar, uma sombra mais ousada ou carregada.

 

Uma nova palavra introduzida deixa mais claro a intenção.

 

Um novo gesto, uma pausa, um sorriso.

 

Segunda descoberta: agora vamos para outra...

 

Não sabemos quando se dará, mas que vamos, vamos.

 

Já marcamos até o local do encontro, um outro camarim.

Vamos deixar os personagens decantarem um pouco.

 

Terceira, os personagens são egoistas e continuam a matraquear em nossas cabeças.

 

Exigem espaços.

 

Calma, meus amigos, o tablado é o mundo.

 

Escrito por Del Vigna às 19h44
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22/04/2011


Video-fotográfico: Lobos não entram em Labirintos

Veja nosso video-fotográfico que resume a história da peça que vamos estrear em 14 de maio, no Espaço Cultural Renato Russo, em Brasília.

http://www.youtube.com/watch?v=97Q-wACKZPo

Escrito por Del Vigna às 22h28
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Espaços vazios

A vida é um processo que acontece no presente. Quem consegue viver sempre no presente? Estamos sempre vagando presente-passado e presente-futuro. Mas, estamos sempre no presente, não nos enganemos. Projetar, executar, avaliar ou vadiar?

Que salões do inconsciente frequentam os conhecidos do passado? Um som de carrossel de um circo decadente embala sua cabeça. Um som transparente como as águas de Cancun. Não lhe assusta o vazio dos espaços, nem o preocupa a abundância dos sonhos que se alternam em dias pares e impares.

Quando a saudade lhe vem à mente, ele retorna aos lugares frequentados.  Onde o tempo e o ambiente eram ruidosos agora é vazio. Ouve a musica, mas não vê os pares. Em volta da fogueira estão sentadas silhuetas, as pessoas desapareceram. Eram tão reais há alguns anos atrás e, agora, em que parte da mente se escondeu?

A realidade exige sua atenção e ele vaga pelos vazios do tempo. Uma cabeça de queijo suíço que não consegue se livrar dos ventos que perpassam seus furos enchendo seus olhos de nuvens. Tanta coisa reclama solução. Fica olhando as cores diferentes das latas de lixo reciclável.

Da janela do edifício vê a Esplanada dos Ministérios. São como duas pernas abertas que terminam nas grandes torres gêmeas do Congresso Nacional. Olhando bem, o prédio do Congresso com as cúpulas da Câmara e do Senado, se assemelham a um pênis. Que imagem mais fora de hora. 

Depois de um dia duro de trabalho chega a casa. Segue direto para a biblioteca. Despe-se das roupas sujas da realidade cotidiana. Veste um jaleco colorido. Na quietude do ambiente fica conversando com os velhos mestres. Pede e ouve conselhos. Diverte-se com os casos que lhe são contados. Nestes momentos não lhe aflige a solidão, não lhe afeta o sofrimento nem teme a morte.

O vento levanta as cortinas anunciando uma mudança no tempo. A lua não apareceu, o céu está só. Na porta do supermercado um menino pede ao pai, guardador de carros, uma caneta de rico. “Uma Bic”. “É caro”, pergunta o pai. “Uns dois reais”. “Então preciso fazer mais uns carros”. Os olhos brilhantes do menino se admiram do pai.

Os espaços vazios da mente, os ventos que trespassavam a cabeça de queijo são substituídos por uma chuva fina. Lembra uma garoa paulistana. Um apartamento de janelas de discos voadores desenhados a guache.

Deixa a realidade estacionada no supermercado e leva na sacola de plástico le Cirque du Soleil.  

Escrito por Del Vigna às 20h29
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02/01/2011


Passeio urbano

Largado no sofá observo a luz ir se modificando. Ruídos urbanos acompanham as sombras que avançam. Um carro passa acelerado. Insistente falta de educação no transito. Bocejo.

Porra! Tomei um copo de caipirinha sem notar”. Fico pensando em fazer outro, mas numa lerdeza atroz me toma. “Preguiça é pecado mortal? Jesus bebia vinho porque não conhecia caipirinha”. Espremo outro limão, vagarosamente.

Na banca de jornal observo as pernas da vendedora. Olho a capa da Playboy. Comprar jornal é um hábito. Tem na internet, mas não dá prá ler no banheiro. A vendedora sorri de dentro dos olhos claros. “Inclui a Playboy na conta”.

Resolvo sair. O ponto de ônibus asila pessoas tristes. As arvores passam junto com as pessoas nas calçadas. A juventude de iphone passarinha pelo ônibus.

Quero entrar para a eternidade de limusine. A sonolência do sol fecha meus olhos. Meu ponto chega, desço rápido. Um bíblia me aborda. Deus me ama!

Abre o sinal. O shopping me consome pelas portas. Faço das escadas russas montanhas rolantes. Perambulo como um aposentado insone.

Evito as livrarias. O que faço com tanta informação? O sonho da biblioteca de um único livro se concretizou na internet. Qualquer coisa pergunte ao Google, Deus responde.

A mudança climática é coisa séria. Quase morri de dó daquele urso branco sendo levado num pedaço de gelo. As elites não têm consciência, tem apenas dinheiro. As alterações climáticas podem ser boas. Imagine nevar em Ourinhos? A Rua Expedicionário toda coberta de neve. Uma perfeita pista de esquis.

No Pátio Brasil Shopping de Brasília vários adolescentes se suicidaram. A administração colocou no terceiro piso uma proteção de vidro à prova de “emos”. Olho lá de cima. O baque é grande, mesmo!

Na vitrine da Kopenhagen um reflexo de mulher chama minha atenção. Misturo as coisas ou elas já vêm misturadas? Rosas e chocolates.

Saio do shopping, chove forte. Devia ter vindo de carro. Da marquise observo um grupo de jovens vestidos de negro. A rebeldia do século XXI pinta o cabelo e se cobre de piercing.

Tenho acordado de madrugada. Levanto vou até o banheiro e volto dormir. Antes dormia direto. Acho que são os sonhos que se acumulam e tenho que levantar para descartá-los. Volto a sonhar.

Tomo um taxi. As pessoas passam mais rápido. Sinto que assim meu tempo também passa mais rápido. Peço para o motorista parar, desço e continuo a pé. Andando, olhando os rostos sinto uma agradável sensação de controlar o tempo.

Escrito por Edelcio Vigna às 20h00
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11/07/2010


Cristais não nascem às margens do Sena

Olhando as águas do Sena contornou os olhos com um risco bem forte e grosso. Sabia, seguia a intuição feminina, que seus olhos verdes ressaltariam com a tintura carregada. Como uma mulher experiente colocou o eye-liner sem tremer e, olhando-o de viez pelo espelho, começou a pintar os olhos em degrade.

Com um lápis achatado colocou o tom mais claro nos cantos dos olhos. Depois com o pincel espalmado espalhou a cor mais escura pela pálpebra. Carregou no pó mais escuro e fez o contorno do globo ocular. Por fim, deu uns retoques com a cor clara, para que a pintura ficasse perfeita. Como uma atriz de cinema dos anos vinte empoou o rosto com pó de arroz. Ao espelho semelhava a uma gueixa.

Delicadamente iniciou a pintura dos lábios. Aplicou o batom vermelho sangue. Depois, contornou-os com um lápis negro fino. Tinha comprado de uma vendedora que passara pela empresa. Falou que era um presente para sua esposa. Sorriu.

Assistira, quase por acaso, a uma temporada de alta-costura parisiense. Chanel, Dior, Gaultier e Valentino exibiam suas criações na Maison de Martin Margiela - última edição Outono/Inverno 2010-2011. Luxo e euros.

Sentara na terceira fila a fim de preservar certa discrição. Havia poucos homens. Com um braço cruzado e a mão apoiando o queixo observara com atenção o desfile. A coleção da Chanel apresentava uma série de vestidos magros e longos com pescoço strapless, que chamavam a atenção.

A grife jogava com as pantys de renda e as saias longas com cortes de diversos, que mostram as pernas de maneira atrevida. Lentejoulas e pedraria enfeitavam com grande brilho. Estilo anos 80 e 90, que fora do contexto ressaltavam o bom gosto.

Um vestidinho não abalaria suas finanças. Podia. Ficou pensando quais as medidas que diria à manager. Tentado pela sua fina ironia diria, certamente, as medidas de uma modelo: quadril: 93 cm, cintura: 63 cm, busto: 89 cm. Manequim: 38. Serviria? Decidiu, pediria algumas polegadas a mais.

Terminado o desfile desceu a Rue de Montpensier até a Galeria Orléans, seguiu feliz até o Jardin du Carroucel. Levava uma fina bolsa contendo um sonho de saia vermelha em seda pura Chanel, com vários detalhes em renda e aplicação de cristais. Ficou passeando, observando as pessoas. Eram três da tarde e esta é a hora dos turistas no Louvré. Podia-se ver pela fila enorme que se formava na entrada da pirâmide.

Evitou esta entrada e desceu pelas escadas do Arco do Carrossel e entrou no shopping debaixo do Louvre. Queria comer algo rápido. Pediu uma taça de vinho branco e um croque-monsieur, feito com queijo emental. Era muito metido. Sorriu do próprio pensamento.

O sorriso atraiu o olhar de um jovem que estava em outra mesa. Não devia ter trinta anos. Cabelos longos, olhos castanhos. Instintivamente saudou-o com a taça. O rapaz levantou e dirigiu-se até a mesa.

Era um jovem professor de História de Arte. Estava chegando de Lisboa onde lecionara na Universidade Nova de Lisboa. Iniciara o doutorado na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, que fica próxima ao Museu do Louvre. Ficaram conversando. Sorriam.

Quando percebeu eram quase dez da noite. Levantou pegou a bolsa, mas o rapaz sugeriu para que fossem perambular, sem compromisso, pelos jardins do Forum des Halles, localizado onde funcionara o mercado central. Os jardins, projeto do urbanista David Mangin, ficam perto do Museu do Louvre, as margens do Sena. Seguiram.

A madrugada amanheceu no Sena. A bolsa da Maison de Martin Margiela jogada no canteiro atraiu a atenção da policial que iniciava sua ronda matinal. Alguns retalhos de seda vermelha se encontravam mais à margem. A pedraria costurada manualmente ao tecido brilhava ao sol.

Chamou pelo radio os colegas seguindo o instinto policial. Neste momento, o alto-falante do aeroporto anunciou a última chamada Paris-São Paulo. O avião taxiou na pista e levantou vôo com o assento 16D vago.

Escrito por Edelcio Vigna às 16h26
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10/06/2010


Nós que amamos tanto o teatro!

Antes de fazer 60 anos, Sérgio Nunes, assim como Macunaíma, resolveu virar estrela. “Não vim ao mundo para ser pedra estéril, vou prô o céu ser pedra que brilha”.

Sérgio era polêmico e isto faz diferença na arte do artista. Ele não morava, se escondia em um ateliê, um prolongamento do palco, um camarim, um bastidor. O seu castelo-refúgio preservava algo do cenário de “O Escorial”. A peça que trata da decadência do império espanhol foi uma das montagens mais geniais que assisti. O Sergio se superou como ator e diretor. Por isso, reteve o cenário por toda a vida.

Na peça, o bufão constrói uma cena contando ao rei uma lenda sobre um povoado que coroa o mais normal dos homens e a festa gira ao redor dele. Ao final do dia a coroa é violentamente arrancada de sua cabeça e ele retorna a sua insignificante posição. O ser humano nu, despojado da materialidade mundana. Frágil como uma criança caída do ventre.

Sergio recusou ser um personagem único. Era muitos. Carregava sonhos nas costas. Um dia me segredou: “não agüento mais esse peso dos sonhos”.

Neste morrer e renascer exercito solitário o passo-atrás e revivo as montagens inquietas do Arena conta Tiradentes, Arena conta Zumbi, a denuncia do Bravo soldado Schweik, a intolerância de O Santo Inquérito, a avassaladora Morte e Vida Severina, a inovação em Liberdade, Liberdade e a visão romântica revolucionária dos diários de Che e de Mãe Coragem. Teatro Amador de Ourinhos.

Relembro o provocativo Poemusgo, quando fomos presos por desacato a moral. Ainda vejo o delegado gritando: “O que é isso?”. E respondíamos: “Poema, Música e Gozação”. Ia mandar quinze adolescentes ourinhenses para os calabouços do Fleury só porque umas mocinhas saíram das caixas de modess e distribuíram flores para a platéia? “Todos para casa e dá próxima vez, vai ter”. E lá fomos nós sonhando novas montagens.

Relembro a construção do Teatro da Beira. Fecho os olhos, sento na arquibancada e assisto a glória fugaz e o fim de um sonho. Uma geração sonhou junto um sonho muito pesado para vontades tão frágeis. Como éramos frágeis!

Silenciosamente fomos saindo do palco, dos refletores e nos tornamos personagens gorkianos. Aos poucos, fomos distanciando dos sonhos sergianos e assumindo outros. O fazedor de sonhos continuou semeando grupos teatrais, blocos carnavalescos e incentivando as “furiosas”.

Nunca sonhou dentro de um gabinete. Quando lhe deram um cargo municipal, confessou-se incomodado. Depois de algum tempo, preferiu o barracão da estação ferroviária. O espaço de criação lúdico-teatral não é o espaço administrativo.

Agora quando viajo para Ourinhos, visito o Sergio. Não dá para não visitá-lo. Antes era difícil encontrá-lo, sempre estava ensaiando em algum lugar. Na última vez que fui visitá-lo disse: “amigo, agora vai ser fácil te encontrar. A sua morada é fixa”. Seu espírito inquieto sussurrou: “engano seu, agora estou tão livre como Ariel”.

Fiquei sorrindo como besta sentado na laje fria. Um vento morno soprava no calor de agosto. Os anjos me olhavam numa expectativa irritante. No céu nenhuma nuvem. Com os dedos pinceis desenhei uma máscara teatral na laje negra.

Escrito por Edelcio Vigna às 19h21
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A vida é feita de reuniões

A sala de reunião da Comissão estava lotada. A Mesa composta de especialistas. Os parlamentares entravam, sentavam na primeira fila, ficavam um pouco e saiam para outras atividades. É o costume.

Ele estava bem atrás dela, juntinho. Lila fazia uma pressão de corpo para trás. As pessoas iam e vinham de várias direções. Ela sorria e se mexia com certa excitação. Continuava pressionando seu corpo no dela, devagar. Ela sustentava a pressão. Gostava de ser delicadamente assediada.

Três são as perdições do homem: mulher, jogo e bebida. Mulheres eram seu fraco. Sabia-se um cafajeste. Nunca um canalha. Dizia-se amoral por razão de consciência.  Não carregava sentimento de culpa.

Lila exalava um perfume invasor. Sabia-se desejada e se deixava cortejar. Um comportamento de fêmea dominadora. Sabia que ele não avançaria além de um determinado ponto que ela mantinha como linha de defesa. Sorria.

A sessão continuava. O entra e sai era constante. Ela se virava, andava um pouco, escapava do contato. Voltava. Seus seios roçavam seus braços. Os pronunciamentos não eram concorrentes com a sensação daqueles seios espremidos ao seu corpo.

Gostaria que a sessão continuasse por mais tempo. Sabia que ao terminar cada um iria para um gabinete. O encontro ficaria adiado para outra oportunidade. O tempo é ambíguo: às vezes passa depressa, outras em câmara lenta como num filme de Godard. Seria este mesmo o diretor?

Não conseguia lembrar o nome de nenhum filme de Godard. Também, naquelas circunstâncias. O nome de Godard veio de repente. Quando o perfume embalou sua imaginação pervertida. Roma é de Godard? Não, acho que é de Fellini.

O presidente da Mesa estava encerrando a sessão. Como assim? Tão de pressa. Nem houve debate. Será que nenhum parlamentar vai levantar uma questão de ordem? Um esclarecimento. Nada? O único parlamentar presente estava falando ao celular. A secretária da comissão já recolhida os papeis.

As pessoas se levantavam. Ele continuava colado nela. Usufruía da satisfação do empurra-empurra. Esfregou com o braço nos seios siliconados. Lila não se importou, até provocou projetando-os para frente. Sorriu e saiu rebo-rebolando.

Acompanhou com o olhar o caminhar que se espalhava pelo corredor atraindo olhares. Cumprimentou mecanicamente as pessoas. A sala se esvaziou. Cadê a secretária morena? Já foi. Ele ajuntou em uma pasta de capa dura os textos distribuídos. Arrumou a gravata e saiu convencido que a vida é feita de reuniões.

Escrito por Edelcio Vigna às 14h46
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19/05/2010


Guerreiro dos Gestos Largos

 

Ao lado do caixão daquele índio, pensava.

Foi um cacique. Perseguiu sonhos civilizados, apesar das restrições que a vida lhe impôs. Enfrentou tempos duros e não ficou insensível. Sábio aceitou a força da correnteza e caminhou com as águas.

Ao lado do caixão daquele índio, pensava.

Sobre o cão perdigueiro que levantava a perdiz escondida nos campos. A espingarda de cano duplo e a mira certeira. A familiaridade do cheiro da pólvora.

Comecei a esquecer esse cheiro quando ele atirou no cachorro que corria feito louco pelo campo. Lembro-me dele cuidando os ferimentos. Nunca mais vi o cão, mas não me esqueci do seu nome. Ele continua correndo pelos campos do meu pensamento. Louco e sem tiros.

Ao lado do caixão daquele índio, pensava.

Ele está correndo pelos campos celestiais onde a arma não tem utilidade. Talvez tenha encontrado o cachorro que nunca esquecera.

Ambos se encontram na felicidade simples de caçar, na satisfação de ver a perdiz e a codorna levantar vôo. Deve estar tão alegre que sequer olha para trás: para os que ficaram parados.

Se pudesse nominá-lo, eu o chamaria de a Calma do Guerreiro.

Ele pouco se atribulou diante das diversidades que povoaram sua vida. Sempre prosseguia com a tranqüilidade dos que não questionam o destino.

Poderia, também, ser chamado de o Guerreiro que Sorri.

Sempre sorriu, mesmo quando a vida lhe promoveu tragédias.

Olhava conformado com o acontecido. Seus olhos marejavam, quando era tomado de emoções, mas os lábios sorriam.

O Guerreiro dos Gestos Largos - poderia ser outro nome.

Seus braços encontravam os do mundo. As pessoas eram objetos do seu abraço. Ele era um brasileiro, semi-letrado, mestiço de fortes traços indígenas, herdados pela sua descendência.

Ao lado do caixão daquele índio, eu pensava.

O guerreiro não precisa mais da espingarda de cano duplo, nem de cartuchos artesanais.

No campo onde ele agora caça não há cercas. O cachorro não precisa necessariamente andar ao seu lado. Pode correr solto pelo prado infinito. E, quando isso o ocorre, ri satisfeito.

À noite não lhe cai sobre a cabeça lembrando que é hora de voltar para casa. Para um cotidiano que nunca teve nada a ver com ele. Onde está deve ser sempre dia e o ar é impregnado do cheiro verde da grama molhada.

O perdigueiro levanta a caça, ele ri e roda com os braços abertos nos campo eternos da minha imaginação. Como morto se eterniza, supera o tempo e cria o futuro.

Escrito por Edelcio Vigna às 12h50
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13/03/2010


Caçador de Palavras

 Juan estava com o cérebro esvaziado. Seus dedos paralisados já não sonhavam imagens. Rondavam as letras e as palavras não nasciam. Não havia diálogo entre as frases. Cada frase era um monólogo interrompido.

Arrastava-se atrás das palavras que fugiam. De que valia um dicionário em branco? Um sonho que não sonhava? Revirava na cama olhando o teto que sequer caía. A lua era apenas um buraco no céu.

Abria o livro e os parágrafos se esparramavam sonolentos pelo chão. Alguns ficavam perdidos nos lençóis. Neles não havia nenhum cheiro. Há muito tempo não são amassados pelos corpos. Juan saía da cama devagar como quem pedia licença. Envergonhado das suas frases lineares.

Olhava a estante de livros. Surpreendia-se com alguns títulos. Folheava-os com curiosidade. Comprou um livro que já possuía. Tinha esquecido. Sentia um ambíguo sentimento de surpresa e tristeza.

Ficou tentando lembrar o nome de um filme onde o personagem tinha os armários repletos de “O apanhador nos campos de centeio”.  Não conseguiu. Lembrava-se da cena: a polícia abrindo os armários da cozinha que estavam acumulados de livros. Replay, replay, replay.

Juan, vestido de trajes coloridos, acercou-se da jaula da leoa de olhos amarelos. O picadeiro estava coberto de serragem. Ela o cerca, enrola o rabo nas suas pernas. Ele morde-lhe a nuca como um tigre de asas, delicadamente.

Do pátio em frente observa da janela, a árvore que invade o quarto. Os carros estacionam homens apressados. Nenhum repara no seu corpo exposto. Só os passarinhos brincam sobre sua nudez.

A espiral de fumaça do incenso tricota desenhos no ar. Seu sorriso lembra o lança perfume de um carnaval que nunca envelhece. Sempre o mesmo cheiro. Sempre a mesma palavra trançada de múltiplas formas. Parágrafos lidos de forma autônoma. A descontinuidade rege a vida e o texto.

O acaso gera várias leituras de um mesmo texto. O desafio é transpor o batente da rigidez mental. Arquétipos soltos no inconsciente de Juan.

 

Escrito por Edelcio Vigna às 12h22
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10/03/2010


A bicicleta verde

Era uma bicicleta verde, pequena e forte. Saia logo depois do almoço e só voltava no final da tarde. Voava pelas estradas de terra. Sorrindo levantava um poeirão vermelho. Seguia alegre com suas companheiras de aventuras.

Ia para o cebolão, um lugar onde existia uma árvore que exala um forte cheiro de cebola. Uma grande árvore de tronco e galhos robustos que sustentavam o peso dos garotos. Nunca soube o nome científico daquela árvore. Ficavam lá sentadas contando e reinventando histórias.

Era muito mentirosa, mas contava-as com uma ingenuidade angelical. Um rodamoinho bem na testa espetava os seus cabelos negros. Dava-lhe um ar de moleca atrevida. Os olhos castanhos vivos sobressaiam na face empoeirada. Era espirituosa e engraçada.

Parecia o menino do interior de camisa xadrez e aberta que ela conduzia. A liberdade da pequena cidade possibilitava aventuras a ambos. Ia ao cebolão, mas poderia ir ao rio Paranapanema. Ficar sentados nas suas barrancas, olhando as águas passarem. Ou aos canaviais que rodeavam a cidade, donde exalava um cheiro doce. Ali ficavam chupando cana. Garapeando.

Muitas vezes, voltava com a roda murcha. Obra de prego solto na rua. Inveja se não mata, murcha. Chegava à casa estropiada. Selim arriado de lado, onde já se via um pequeno rasgo. Encostada no fundo da casa ficava recuperando o fôlego. Às vezes se estatelava na varanda de onde observava a rua.

Outras bicicletas passavam, mas nenhuma tinha saboreado a liberdade do rio ou o cheiro doce do canavial. A bicicleta cor de rosa da Vera, às vezes, vinha visitá-lo de manhã. Trazia um sorriso nos lábios. Coisas de bikes apaixonadas.

Não entendia a preocupação dos pais do menino. Iam e voltavam juntos. Protegiam-se. Só não o acompanhava à Escola. O garoto saia cedo e ela ficava dormitando encostada no tronco da mangueira do fundo da casa. O tempo era inteiro e imenso. Sentia o vento que soprava distinto de todos os ventos, porque soprava no agora.

Nestas horas pensava como seria quando o menino crescesse. Mas, isso não pertencia ao agora. Sabia que assim que ele chegasse, iriam correr estradas. Assim foi por longo tempo.

Os dias foram passando. As saídas se rareando. Um dia viu o tênis do menino jogado no lixo. A camisa xadrez acabou como pano de chão. Ela permanecia encostada na velha mangueira. A calça curta foi substituída pela calça comprida.

A bicicleta da Vera também não mais aparecia. Ficou triste porque a Vera morava em apartamento onde não havia mangueira. Onde ela tinha encostado a bike? O menino estava tão grande! Ela também, de certa forma, tinha crescido. Tinham-na dependurado a um dos troncos da mangueira. Agora via tudo do alto.

O tempo da chuva chegou. Depois veio o tempo do sol. Aos poucos foi sentindo falta de elasticidade nas engrenagens. A corrente perdeu o óleo. Um dia sentiu alguém retirando os pedais. Depois, retiraram as rodas. Sorriu pensando no tênis e na camisa xadrez do menino.

Buscou pensar no tempo que era uma bicicleta verde. Encostou o guidão na mangueira que a sustentava. Aconchegou-se no próprio selim rasgado e mergulhou num tempo infinito onde havia um menino, uma árvore e um barranco de um rio chamado Paranapanema. Antes de se esquecer sentiu pela última vez o forte cheiro do cebolão e o doce cheiro dos canaviais.

Escrito por Edelcio Vigna às 21h46
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13/01/2010


O baile do último homem alegre

Eu devia ter dançado com você. Não me recordo se havia música, mas eu devia ter dançado com você. A felicidade se traduz em movimentos. Ninguém ri sem se movimentar. A tristeza faz encolher os ombros, esconder o rosto.

Zaratustra, o bailarino, dizia: “O dançarino é a alma contente de si mesma”.

Recordo da passagem em que dois equilibristas disputam espaço na mesma corda. “O homem é corda estendida entre o animal e o super-homem”. Um dos bailarinos perdeu a cabeça e a corda, largou o balancim e precipitou-se como um remoinho de braços e pernas. O corpo caiu junto a Zaratustra, que olhando a agonia do equilibrista ponderou: “Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar”.

Se há sentimentos que imobilizam, há sentimentos que estimulam dançar. “Que todo o dia em que não se dance seja para nós perdido!”. A terra pesa mais sobre os que não sabem dançar. Mais vale dançar pesadamente do que andar mancando.

Vem e aprenda a dançar como vento quando se precipita dançando nas cavernas montanhosas. Quando eu dançar diante de você, ninguém poderá dizer: "Olha, aí está o baile do último homem alegre!”.

Escrito por Edelcio Vigna às 19h22
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O tinhoso

 

Fui à delegacia fazer um Boletim de Ocorrência (BO). Enquanto esperava observei um senhor que parecia aborrecido. Impulsivamente perguntei o que ocorreu e ele me contou a seguinte história.

“Estava eu na beira do poço da minha vida de bandoleiro quando me chegou um jovem bem apessoado e falante. Dizia-se o capeta, o tinhoso, que lendo o livro da minha existência apercebera que eu era o tipo que ele bem queria perto.

Assustei com aquela prosa desvairada, cheia de lengo-lengo, mas bem aportada nas coisas que fizera na vida. Sabia o tudinho das minhas estórias. Tinha conhecimento das mulheres que tive, das que abandonei na hora do parto, das que cortei o rosto com navalha e das que matei por ciúmes.

Falava por sua boca as palavras dos homens que matara nos duelos de punhal. De outros que trucidara por divertimento em bebedeiras. Dos que matei disputando o produto dos roubos.

Nesta fala entremeada por frases injuriosas surgiu o dedo dos inocentes que se perderam na raiva do meu ser. O maléfico falava de sobra de tantas coisas que nem me lembrava por não querer lembrar. Impunha uma relembrança tapada pelo véu do esquecimento, que nunca ninguém ousara mencionar.

Que atrevimento besta desse moço bem apessoado, com sorriso estampado na boca e cabelo penteado a base de vaselina! Dirigir-se a mim com este desrespeitamento!

Mas, no controle de mim perguntei o que queria. Que dissesse prá que veio, direitinho, senão não ia sair prá contar história. Não matava ele ali, não por medo, mas por curiosidade.

Tinha um percebimento que ele não mentia, mas queria uma mostra a mais. Palavra por palavra, pouco me interessava. Caso fosse o de pé-preto, que comprovasse no real a sua maligna identidade.

A minha indignação era tamanha que já estava de pé, achegava muito perto da cara do dito-cujo. A mão fechada no cabo do punhal e o revolver coçando na costa já tardavam a entrar na dança.

Que não viesse o demo de última hora a murmurar palavra de anjo. De rezar em catecismo estranho. De dar revolta em parafuso apertado por vontade própria. Queria saber o porquê de o morcegão estar ali, e eu como boi escolhido em pasto baldio.

Ser matador não é ser desapegado do senhor. Rezo pelos meus desencarnados. Cada qual com seu destino de cada qual. Tenho minha cruz e se fui feito assim, alguma utilidade me acharam.

O pai-do-mal me olhava de lado e num risinho besta me disse que lhe pertencia. Que era alma perdida de caminho certo para os cafundós do Judas. Que de nada valia me agarrar em rosário, água benta ou patuá.

Olhe prá mim escabroso! Lá sou homem de apelar prá santo? De me apegar em saquinho de pano? Risquei o ar com o punhal e o treco pulou de lado com rapidez de gato pardo. O revolver me saltou na mão e fiz três disparos seguidos.

Esperava que o sempre-sério desaparecesse num fumaréu. Que risse de mim num riso medonho. Em vez disso, caiu durinho varado de balas. Ficou estirado como um presunto embalado de preto.

Os tiros atraíram a polícia que não encontrou o corpo. Os policias ficaram me olhando de lado e me trouxeram prá cá. Contei o ocorrido prô escrivão que se negou a relatar no BO”.

Fiquei olhando o camarada sem saber o que falar. Ele completou “Me dispensaram”.

Escrito por Edelcio Vigna às 14h07
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A rua sem saída de Joseph Ká

Era a última paixão de Joseph Ká. Não haveria mais tempo para mais. Os dias passavam rápido. Ele cultivara aquele amor como uma última extravagância. 

Era um segredo. Nunca comentou com ninguém da repartição. Era um amor mudo que batia descompassado. Era um sonho que beirava a excentricidade. Não declararia nem que seu cargo estivesse em perigo. Se o fizesse correria o risco de afastá-la definitivamente.

Quando iam fiscalizar outros ministérios suas mãos se roçavam enquanto caminhavam pelo Eixo Monumental. Ela aceitava o carinho. Talvez fosse a forma feminina de aceitar a atenção. Joseph não perguntava. Temia que uma palavra mal colocada pudesse afastá-la.

Prosseguia com sua estratégia muda para mantê-la próxima. Acreditava que a intimidade seria progressiva. Trocavam bombons e sorrisos. Seus corpos se atraíam. Suas despedias se davam por abraços afetivos.

Certo dia o senhor Ká observou que ela se comportava de forma semelhante com outros chefes. Era um mecanismo de conquista social e profissional, diagnosticou. Estava nas mãos de uma alpinista profissional.

Entendeu a necessidade de superar esse amor tardio, mas não conseguia. Ela exercia um fascínio dominador. Seus olhos o encantavam. Ele se abandonou àquela paixão doentia, porque se sabia sem futuro.

Certo dia avisou-o, em conversa informal, que ia morar com o ex-namorado. Voltara. Joseph Ká nem sorrira, nem desejara felicidades. Recebeu a notícia, como se não tivesse sido dada. Mastigou o coração como um animal omofágico.

Desligou o computador e saiu. Desceu pela escada de incêndio ignorando o elevador. Na rua não sentia a chuva lavando o rosto. Caminhou até o estacionamento. Ligou o carro, saiu devagar. No Eixo Monumental entrou em uma rua sem saída e acelerou no máximo.

Escrito por Edelcio Vigna às 13h06
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